Num
claro
dia
de
outono,
em
São
Paulo,
chegou
às
mãos
de
dona
Marina,
bibliotecária
da
escola
Terra
Brasilis,
uma
caixa
de
papelão
contendo
diversos
livros
recebidos
em
doação.
Ao
abrir
a
caixa,
Dona
Marina
verificou
serem
bastante
antigos,
empoeirados,
amarelados
pelo
tempo.
Dona
Marina
começava
a
limpar
os
livros
para
catalogá-los
quando,
de
repente,
algo
caiu
de
dentro
de
um
deles.
Tratava-se
de
um
envelope,
fechado,
aparentemente
contendo
uma
carta,
endereçada
"A
meus
queridos
pais".
-
Que
estranho...
uma
carta
fechada...
tão
antiga
e,
se
não
foi
aberta,
provavelmente
nem
foi
lida
por
seus
destinatários...
-
pensou
dona
Marina,
enquanto
divagava
se
deveria
ou
não
abrir
a
correspondência
e ao
mesmo
tempo
percebendo
que
o
envelope,
devido
à
sua
espessura,
deveria
conter
mais
de
uma
folha.
Finalmente,
não
vencendo
a
curiosidade,
dona
Marina
abriu
o
envelope
e
encontrou
não
apenas
uma,
mas
duas
cartas,
datadas
de
sessenta
anos
atrás.
Uma
delas
era
destinada
"A
meus
queridos
pais"
e a
outra,
menor,
quase
um
bilhete
-
"Ao
Rodolfo,
meu
pedido
de
perdão".
Ambas
as
cartas
continham
como
assinatura
o
nome
Matilde.
Dona
Marina
pôs-se
a
ler
primeiramente
a
carta
endereçada
aos
pais
-
supostamente
aos
pais
da
remetente
Matilde.
Nessa
carta,
Matilde
pedia
perdão
a
seus
pais
e
inocentava
uma
pessoa
chamada
Rodolfo.
"Meus queridos pais... como sabem, estou de viagem para São Paulo, mas resolvi deixar-lhes esta carta para explicar que me sinto envergonhada, pois levantei falso testemunho contra o Rodolfo. Ele é inocente. Eu disse que ele era culpado, por despeito e inveja. Agora estou arrependida e peço-lhes perdão por essa covardia. Junto a esta, deixo uma carta ao Rodolfo e rogo-lhes que a entreguem a ele, para que possa ser inocentado.
Com amor, Matilde"
-
Que
história
intrigante
-
pensou
a
bibliotecária,
já
pensando
em
uma
maneira
de
elucidar
o
mistério
da
carta
que,
entretanto,
não
continha
local
do
remetente
nem
sobrenomes
dos
envolvidos.
Nos
dias
seguintes,
após
tentar
localizar
o
doador
do
livro,
sem
sucesso,
e
contando
com
a
ajuda
de
alguns
alunos
do
colegial,
Dona
Marina
vasculhou
a
internet
pesquisando
os
nomes
das
pessoas
envolvidas,
não
resultando
em
nada.
Foi
quando
uma
aluna,
ao
saber
da
instigante
história,
encontrou
uma
provável
alternativa:
-
Esse
mistério
é um
trabalho
para
Rodrigo
e
Daniela!
Os
colegiais
decidiram
então
contatar
o
jornalista
Fábio,
amigo
do
jovem
casal
de
paranormais
Rodrigo
e
Daniela.
***
Na
fresca
manhã
de
outono,
na
varanda
do
casarão
do
Parque
do
Carmo,
ao
som
de
passarinhos,
Rodrigo
e
Daniela
aguardavam
a
chegada
do
amigo
Fábio,
o
jornalista
free-lancer
sempre
em
busca
de
uma
boa
história
-
que
já
lhes
contara
sobre
o
mistério
das
cartas
por
telefone.
Rodrigo
e
Daniela,
jovens,
enamorados,
habitualmente
envoltos
em
uma
aura
de
paixão
e
romance,
entre
beijos
e
carícias,
confabulavam
a
respeito
das
cartas.
Tratava-se,
afinal,
de
uma
carta
que
não
fora
entregue,
ficara
esquecida
dentro
de
um
velho
livro
durante
sessenta
anos
e
com
um
pedido
de
perdão...
Nela,
uma
mulher
chamada
Matilde
pedia
perdão
por
haver
difamado
alguém
chamado
Rodolfo...
quanta
tragédia
não
poderia
estar
oculta
nessas
entrelinhas?...
Será
que
ainda
estariam
vivos
os
personagens
daquelas
páginas?
Assim
que
Fábio
chegou
trazendo
as
cartas,
Rodrigo
e
Daniela
as
tomaram
nas
mãos
para
um
contato
físico
com
o
material.
Esse
procedimento
era
importante
no
processo
de
mentalização
paranormal
dos
jovens.
Cada
um
deles
pegou
uma
carta,
passando-lhe
as
mãos
suavemente.
Ambos
se
entreolham
e
Rodrigo
vislumbrou
mentalmente
um
jovem
numa
prisão
e
uma
moça
chorando.
-
Pressente
algo,
amor?
-
indagou
Daniela,
enquanto
também
vislumbrava
uma
paisagem,
uma
região
de
montanhas.
O
casal
trocava
algumas
impressões,
quando,
ao
pressentir
o
mesmo
que
Daniela,
Rodrigo
vislumbrou
ao
longe
uma
serra
em
tons
acinzentados,
meio
azulada.
-
Serra
Azul!
-
gritou
então
Daniela,
captando
a
mentalização
do
namorado.
-
Essas
pessoas
são
de
Serra
Azul!
-
Serra
Azul?
-
interferiu
o
jornalista
Fábio.
- É
um
lugarejo
da
Mantiqueira,
não?
-
Sim
-
concordou
Rodrigo.
- Se
quisermos
elucidar
esse
mistério,
temos
de
ir
para
lá.
-
Que
tal
já?
-
empolgou-se
Fábio.
Na
mesma
tarde,
os
três
jovens
seguiram
para
Serra
Azul
levando
as
cartas,
tomados
pela
curiosidade
que
sentiam
em
situações
semelhantes.
Embora
já
estivessem
habituados
a
investigar
casos
de
suspense
e
mistério,
um
clima
instigante
sempre
pairava
entre
eles.
Os
três
conversavam
sobre
o
que
já
haviam
deduzido:
o
jovem
na
prisão
provavelmente
se
tratava
do
Rodolfo
a
quem
Matilde
pedia
perdão.
E a
jovem
mulher
chorando...
seria
ela
própria?
-
Não...
creio
que
não...
inferiu
Rodrigo.
-
Não
senti
que
fosse
ela...
talvez
seja
alguma
outra
pessoa
envolvida
da
história.
É
possível
que
Matilde
tenha
levantado
falso
testemunho
sobre
o
Rodolfo
e
ele
tenha
sido
preso
injustamente.
Se
foi
esse
o
caso,
a
cidade
deverá
ter
registro
dessa
história,
embora
tenha
se
passado
há
tanto
tempo.
Ainda
pela
manhã,
Fábio
havia
contatado
um
jornalista
em
Serra
Azul,
Carlos
Ramiro,
que
já
se
encarregara
de
investigar
o
assunto.
Anoitecia
quando
os
três
amigos
chegaram
a
Serra
Azul,
sendo
recebidos
por
Carlos
Ramiro.
O
jornalista
local
havia
reunido
algum
material
antigo
do
jornal
e
ele
próprio
se
lembrava
de,
na
infância,
ter
ouvido
histórias
sobre
um
escândalo
passional
ocorrido
na
década
de
40
na
cidade.
-
Sabem
como
são
essas
histórias
-
disse
Carlos
Ramiro.
- Na
maioria
das
vezes
já
se
tornaram
lendas
urbanas...
A
realidade
funde-se
com
a
lenda
e
criam
o
mito...
Mas
desta
vez
acho
que
temos
algo
substancial
em
mãos.
O
jornalista
expôs
então
o
material
aos
três
amigos
e
relatou
o
que
soubera
sobre
o
ocorrido.
-
Nos
anos
40,
aqui
na
cidade,
havia
um
rapaz
chamado
Rodolfo
que
estava
noivo
do
uma
jovem
chamada
Luciana.
- A
moça
que
estava
chorando
na
minha
visão
-
murmurou
Rodrigo,
fitando
significativamente
os
amigos.
-
Eles
já
estavam
de
casamento
marcado
-
prosseguiu
Carlos
Ramiro
-
quando
o
Rodolfo
foi
acusado
por
outra
moça,
Matilde
Sobreiro,
de
havê-la
molestado.
Foi
um
escândalo.
A
Matilde
era
de
família
tradicional,
poderosa,
que
conseguiu
a
prisão
imediata
do
Rodolfo,
uma
vez
que
ele
se
recusou
a
casar
com
ela.
O
noivado
dele
com
Luciana
se
desfez.
Meses
depois,
a
Matilde
estava
em
viagem
para
são
Paulo,
mas
o
carro
derrapou
na
pista
e
rolou
por
uma
ribanceira.
Ela
morreu
na
hora.
-
Quando
foi
o
acidente?
-
quis
saber
Rodrigo
-
intrigado.
-
Vejam
aqui
neste
recorte
-
disse
Carlos
Ramiro
pegando
um
velho
jornal.
-
Foi
em
agosto
de
1947.
- As
cartas!
A
data!
-
disse
Rodrigo.
-
Vejam,
o
acidente
aconteceu
um
dia
depois
que
a
carta
foi
escrita!
-
Então
foi
isso...
-
falou
Fábio.
- A
Matilde
ia
viajar
para
São
Paulo,
escreveu
as
cartas
se
desculpando,
inocentando
o
Rodolfo,
e no
dia
seguinte
morreu
no
desastre...
- É
mesmo...
-
concordou
Daniela.
-
Provavelmente,
na
confusão
do
falecimento
dela,
a
carta
inadvertidamente
acabou
se
extraviando
e
foi
parar
dentro
do
livro,
sabe-se
lá
como...
Nem
os
pais
dela
a
receberam,
nem
o
Rodolfo,
coitado...
e
todos
continuaram
achando
que
ele
era
culpado...
-
Pois
é -
continuou
o
jornalista
Carlos
Ramiro
-,
mas
a
história
não
termina
aqui.
O
Rodolfo
ficou
dois
anos
preso
e,
quando
saiu,
a
ex-noiva
dele,
a
Luciana,
havia
se
casado
e,
pelo
jeito,
estava
completamente
infeliz,
porque
eles
se
reconciliaram
às
escondidas
e um
belo
dia
fugiram
da
cidade
juntos.
-
Que
história!
-
vibrou
Fábio.
- E
para
onde
eles
foram?
-
Ninguém
sabe
-
respondeu
Carlos
Ramiro.
-
Com
mais
ingredientes
no
escândalo,
a
família
dele
também
se
mudou
daqui.
Viviam
envergonhados
pois
ele
já
era
chamado
de
"o
tarado
de
Serra
Azul...".
-
Coisa
de
louco,
hein?
-
ironizou
Fábio.
-
Bem
-
disse
Rodrigo
-,
agora
sabemos
que
ele
era
inocente...
e
precisa
ser
justiçado.
E,
se
estiver
vivo,
precisa
também
receber
a
carta
reconhecendo
sua
inocência.
Ou
ele
ou a
família
dele
tem
o
direito
de
receber
essa
carta!
Vamos
tentar
seguir
seu
rastro...
-
Vai
ser
difícil
-
argumentou
Carlos
Ramiro.
-
Dizem
que
eles
foram
para
outro
país,
fugiram
para
o
exterior,
Europa,
sei
lá...
Ninguém
mais
soube
deles.
- Um
momento...
-
interferiu
Daniela,
pegando
os
velhos
recortes
de
jornal
nas
mãos.
Ela
tentava
mentalizar
algo
a
partir
daquele
material.
Rodrigo,
percebendo
que
sua
amada
estava
conseguindo
visualizar
alguma
coisa,
tocou
suas
mãos,
captando-lhe
as
sensações
e
dizendo
alto:
-
Argentina!
-
Argentina?!
-
perguntou
Fábio.
-
Eles
foram
para
a
Argentina?
- O
que
você
vê,
amor?
-
perguntou
Daniela
a
Rodrigo.
- Um
gramado,
uma
chácara
ou
fazenda...
sim...
acho
que
é
nos
pampas
argentinos...
um
casal
idoso
caminhando
por
uma
alameda...
-
Vivos!!
Eles
ainda
vivem!
-
vibrou
Daniela.
- O
Rodolfo
e a
Luciana
estão
vivos!
-
Bem,
faz
sentido
-
disse
Carlos
Ramiro
-
eles
devem
estar
na
faixa
dos
80
anos
agora.
-
Precisamos
entrar
em
contato
com
eles
-
disse
Daniela.
-
Como
vão
suas
milhagens,
hein?
-
perguntou
Fábio
ao
amigo,
sorrateiramente.
-
Acho
que
dá
pra
chegar
até
a
Argentina
-
sorriu
Rodrigo.
-
Argentina,
lá
vamos
nós!
-
gritou
Fábio.
Uma
semana
foi
suficiente
para
que
Fábio,
Rodrigo
e
Daniela
conseguissem,
através
de
mentalizações
e
pesquisas
via
web,
localizar
Rodolfo
e
Luciana
em
uma
bucólica
cidadezinha
Argentina.
Eles
agora
formavam
um
simpático
casal
de
idosos,
visivelmente
felizes.
Colocados
a
par
das
descobertas
dos
jovens,
ambos
viveram
momentos
de
intensa
comoção,
relembrando
que
tiveram
de
fugir
do
país
para
viverem
seu
sonho
de
amor
em
sossego,
porém
sempre
com
aquela
sombra
do
passado
presente
em
suas
vidas.
Mas
eles
se
encontravam
em
paz.
Deixaram
o
passado
para
trás,
as
mágoas,
os
rancores...
-
Essa
carta
é
muito
importante
para
mim
não
pelo
pedido
de
perdão,
mas
porque
corrobora
minha
inocência
-
disse
Rodolfo.
- Eu
já
perdoei
a
Matilde
há
muito
tempo...
-
Quanto
a
mim
-
disse
a
esposa
Luciana
-,
passado
o
trauma
do
momento,
no
fundo,
sempre
confiei
na
inocência
dele...
Meu
primeiro
casamento
foi
um
ato
intempestivo,
foi
também
um
erro
de
minha
parte.
No
regresso
ao
Brasil,
os
três
amigos
confabulavam
sobre
o
final
da
instigante
aventura.
-
Essa
história
precisa
ser
passada
a
limpo
-
disse
Rodrigo.
- É
necessário
resgatar
a
dignidade
de
alguém
tão
aviltado,
tão
injustiçado.
Contar
a
verdade
ao
povo
de
Serra
Azul.
-
Deixa
comigo
-
disse
Fábio.
-
Fiz
uma
parceria
com
o
Carlos
Ramiro
para
divulgarmos
a
saga.
Serra
Azul
vai
mudar
de
cor...
vai
ficar
vermelha,
corada
de
vergonha.
De
passagem
por
Buenos
Ayres,
Daniela
manifestou
desejo
de
ir
até
o
cemitério
da
Recoleta.
-
Pra
quê?!
-
quis
saber
Fábio.
-
Bem,
pensando
bem,
tratando-se
se
vocês
não
é
nenhum
desejo
estranho,
he,
he,
he...
-
Ora,
Fábio,
para
ver
os
gatos
que
vivem
por
lá.
Sabe-se
que
na
Recoleta
vivem
inúmeros
gatos
abandonados...
-
Tudo
bem...
desde
que
vocês
não
resolvam
parar
pra
confabular
com
os
"outros
habitantes"
de
lá,
he,
he,
he...
Daniela
suspirou.
-
Bem,
a
propósito,
apesar
de
tudo,
acho
que
todos
saem
com
algo
positivo
dessa
história
-
suspirou
a
jovem,
aconchegando-se
nos
braços
de
Rodrigo.
-
Até
a
Matilde.
Talvez
somente
agora
sua
alma
possa
descansar
em
paz.
***
©Oriza
Martins
Este
conto-episódio
faz
parte
da
série
"Aventuras
de
Rodrigo
e
Daniela"
Veja
também
os
episódios: